Processo Criativo

A propósito da minha última postagem, onde eu discorro sobre o pânico que alguns trabalhos me causam, vai aí um outro textinho que fala mais detida e delirantemente sobre o famigerado processo criativo. Só pra esclarecer, o texto começa do jeito que começa porque era, na verdade uma resposta a um depoimento do Gilmar Fraga, onde ele faz uma espécie de “Making Off” da caricatura do Ronaldo Nazário, coisa muito bacana.

Processo criativo

“…Já o meu processo criativo, se eu for tomar o dia de hoje como exemplo, é um pouco menos… ãhn… criativo, como poderão ver nas próximas linhas - exageros a parte. Antes de tudo faço uma conta rápida do número de ilustrações que preciso criar, leiautar e finalizar até o prazo final para entregar o serviço, calculo qual deve ser a minha performance para cumprir o combinado, respiro fundo e dou por iniciado o trabalho. Me inclino lentamente sobre a folha de papel branca e, após uma breve pausa, bato com intensidade moderada a cabeça na mesa umas cinco vezes, dizendo baixinho a cada golpe: MERDA! MERDA! MERDA! MERDA! MERDA! Feito isto me levanto, vou até a cozinha, abro a geladeira e como tudo que tiver dentro - lâmpada inclusive. Passo para o quarto, onde me deito de barriga pra cima, ajeito o travesseiro sobre o rosto e dou uma cochiladinha que, se não é muito prolongada, é repleta de pesadelos horríveis, com telefones que me perseguem repetindo a mesma frase em tons de voz ameaçadores enquanto os seus fios vão apertando o meu pescoço (o sem-fio fica só gargalhando em volta). A frase… é certo que todos a conhecem, não havendo desenhista no mundo que não tenha calafrios ao ouvi-la. Ela diz: “É PRA ONTEM, VIU?…IU…IU…IU… (efeitos de eco, no cinema, sempre dão bons resultados quando se quer encerrar uma cena de pesadelo). Acordo, assustado, com o telefone berrando na mesa de cabeceira. Atendo, rezando para que não seja nenhum dos clientes. Alívio. É a Mone que pergunta com sua voz doce e descansada: -Oi, Moa! Trabalhando? Respondo que sim enquanto derreto num caldeirão de culpa. Depois de conversarmos sobre algumas trivialidades deposito o fone no gancho e inicio o retorno até o estúdio. A cada passo, porém, o chão vai se transformando em uma matéria viscosa, pantanosa e borbulhante que acaba tornando a caminhada uma tarefa impossível de ser cumprida. Como se não bastasse, o aparelho de televisão emerge do brejo em que virou o assoalho e me intercepta, depositando o controle remoto na minha mão. Reajo e tento sair dali, mas um redemoinho em forma de sofá se abre atrás de mim e me suga sem dar chance de fuga. A TV liga e…OH, NÃO! BOB ESPONJA!! EU ADORO BOB ESPONJA! Desabo. Assisto toda a historinha fingindo submissa prostração enquanto espero os comerciais, minha única esperança de libertação. Até que vem a minha deixa: “BOB ESPONJA VOLTA JÁ! NÃO SAIA DAÍ!” Num movimento rápido e calculado digito o canal da TV Senado e escapo sem sofrer nenhum tipo de resistência da TV e do sofá, aturdidos com a presença da Heloisa Helena aos prantos na tela. Entro no estúdio, fecho a porta, pulo para a cadeira, apanho a lapiseira, leio o briefing da primeira ilustração decidido a só parar depois de rascunhar pelo menos até a metade do serviço. O primeiro é muito chato! Passo para o segundo que é chato e confuso… sem condições. O terceiro briefing parece que tem um mote tolerável. Começo a rabiscar e - estranho - a minha mão não parece ser a de um cara que só fez desenhar nos últimos 16 anos! Traços pesados e vacilantes vão deixando sulcos carregados de grafite no papel. Meu deus do céu, eu não sei mais desenhar! Eu não sei mais desenhar!!… Mais cabeçadas na mesa, BOSTA! BOSTA! BOSTA! QUERO UM EMPREGO NORMAL!! COM PATRÃO PRA XINGAR E HORÁRIO COMERCIAL PRA PODER CUMPRIR E DEPOIS BEBER COM OS AMIGOS NA HAPPY HOUR!!!!… Tento me acalmar passando a borracha mas só consigo deixar o papel cinza e borrado. Eu não sei mais apagar! Eu não sei mais apagar!… Preciso fazer alguma coisa antes que o pânico tome conta de tudo! … A LOUÇA!! Levanto e vou lavar a louça! Não vou conseguir trabalhar com a pia da cozinha naquele estado, justifico o novo abandono do posto.
Depois disso, um arrumadinha no quarto dos guris e uma reorganizada nos CD’s - ordem alfabética ou gênero musical?…
NOTA: como eu não faço a menor idéia de como acabar este negócio e já me sentindo meio deprimidão vou deixar este relato de lado para voltar ao trabalho.
Não sem antes fazer um lanchinho na cozinha, é evidente!
Tchau!
MOA (alguém aí tem prozac?)

6 respostas para “ Processo Criativo ”

  1. Jean disse:

    Super Moa! Dei uma boa olhada em seu site, ficou realmente bom. Fala sério, é tudo mentira o relato acima. Vc desenha pra caralho e tem umas idéias geniais. De modo que quem passa por isso diariamente sou eu.
    Parabéns pelo site e pelo blog. Vou passar sempre por aqui, pra ver se vc tem uma idéia pra emprestar.
    Um abraço!

  2. Moa disse:

    Verdade verdadeira! Tirando algumas loucuras, é tudo verdade.
    Agora me diz: você já sentiu também aquela sensação de nunca ter desenhado na vida? Eu as vezes sinto de verdade. Pego o lápis com a mão meio molengona e não sai nada que se pareça com o meu desenho.
    Brigadão pelas palavras, Jean.
    E um grande abraço.

  3. Rico disse:

    Putzgrila, Moa! virou porta-voz dos cartunistas??? Deve ser sina de cartunista que tem estúdio em casa… risos
    Abração!
    Rico.

  4. Paulo Renato disse:

    KKKKKKKKK!!!!!!!!

    Moa, além de ser um excelente desenhista, você ESCREVE muito bem!

  5. Joao disse:

    Ola, Legal seu post. Criei um sistema para mostrar o pagerank em tempo real para blogs. Sao varios modelos de selo para escolher. Para conhecer acesse http://pagerank.s12.com.br. Abracos!

  6. Douglas Dias disse:

    Fantástico este texto! Vai virar curta, animação ou HQ?

    Muito bom!

    Abração!

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