Humberto Andreatta
Não tenho muito jeito pra homenagens póstumas, mas não poderia deixar passar assim, sem dizer um adeuzinho pro meu querido amigo Betão e dar uma palhinha do seu grande senso de humor.
Foi lá por 96. Sem mais nem “menas” meu nome apareceu como verbete das cruzadas do Jornal Zero Hora.
Só fiquei sabendo porque O Beto, notório cruzadista, viu, recortou - depois de preencher tudo, obviamente - grifou e mandou pra mim, anexado a esta pérola que agora divido com vocês, se tiverem paciência.
Até porque foi o Betão que me alertou para que não postasse textos longos porque afugentava o público blogueiro.
Não é possível!!!!
A despeito do que se vê no recorte, quero declarar, perante o testemunho onipresente de Deus e dos cupins desta casa, que, aos 46 anos, em circunstância casualmente fisiológica - ato consumado no aconchego do banheiro, num belo domingo no meu sítio em Viamão, com o silêncio apenas sendo quebrado pelo eco da queda de materiais espúrios no fundo do vaso - decidi nunca mais perder meu tempo com palavras cruzadas. O que lamento muito.
As cruzadinhas testemunharam minha infância, a puberdade, adolescência e idade adulta, cada época desempenhando um papel adequado às circunstâncias. Higiênico inclusive.
Na infância, foi com elas que pude exercitar o desenho das primeiras letras - atravessando, por exemplo, o “h” de “homem” na vertical com o de “mulher” na horizontal. Ainda não era um gozo. Era só um aprendizado, porque batia com as coincidências que eu fresteava pela fechadura.
Na puberdade, quando você aprende ou não aprende a mexer com tudo - inclusive palavras da onomatopéia própria da idade, como “oh”, “uh”, “ai” e outras que preenchem os buraquinhos de duas letras - as cruzadas eram assim como que um código rápido de entendimento da turma. Vinha um com “Mário”, e o outro lascava um “armário”. Foi quando aprendi que cu e ânus era a mesma coisa. E que tava no dicionário. Foi um achado!
Na adolescência descobri que o uso das cruzadas não tinha, necessariamente, que ser uma atividade privada - vejam só como o mundo dá voltas. Causava arrepio na espinha namorar com duas canetas, e só quem curtiu é que sabe. Se faltava assunto, era só perguntar:
- Órgão responsável pelo olfato, com cinco letras?
A resposta, idiota como a pergunta, era responsavelmente assentada no livreto. Ou, se fosse mais isso - idiota - do que o outro, bastava combinar: eu faço as horizontais, tu completas com as verticais. Se precisar ajuda, pede. No fim, se não rolasse, era porque a gente ainda não controlava bem esse negócio de tesão. A utilidade do nariz só seria descoberta mais tarde.
A idade adulta, considerando os 18 anos pra cima, é aquela coisa da formação intelectual. Em que outro lugar se aprende que um xeique é a mesma coisa que Amir, que argola é um arganel, que o deus egípcio é Rá, que pedra de moinho é mó? De que outra forma se decora nomes de políticos, atores, cantores, personagens da História, da Mitologia, lugares que nunca se viu, rios que não se sabe por onde passam? Eu sei, por exemplo, onde fica o rio Ur.
Pois é. Mas, puta que pariu! perde a graça quando começam a pintar meros nomes de amigos na Palavra Cruzada do jornal. Acabou tudo. Deu. Não tem mais volta. Desilusão é isso. Se era preciso descobrir um significado para MOA, podiam ter ido mais longe - por exemplo, perguntando como se fala “frango” no Havaí. Tava tudo resolvido.

14 de Novembro de 2007 @ 20:34
Cara, sem comentários!
Que surpresa!
Porra, meu… [:)]
21 de Novembro de 2007 @ 12:28
Porra, Moa! E eu que achava que vc não dava mais cruzadinha…(tsss!) Desculpa o trocadilho infame, mas sabe como é: “Perde o amigo, mas não perde a piada!”
Abração!
Rico.
13 de Setembro de 2008 @ 22:50
Saudades dele, e dos churrascos aqui em casa com o pessoal, onde aprendi o valor da convivência…
Um abraço Moa!
2 de Dezembro de 2008 @ 23:21
VOCÊ MERECE, MOA, VOCÊ MERECE!!!!!!!!!!!!!!!